Há 10 anos…

Em 10 de Outubro de 2004, há exatos 10 anos(e 1 dia), embarquei para La Paz para minha primeira viagem de férias na vida – só não imaginava como isto mudaria minha visão de vida, e iniciaria esta obsessão toda em ir para lugares diferentes.

Minha primeira mochila...

Minha primeira mochila…

Como tudo começou

Como tanta coisa na minha vida, comecei a me interessar por viagens lendo. Meu irmão, 2 anos mais novo, tinha feito uma mochilagem bastante grande por Peru, Bolivia, Chile e Argentina no ano 2000 – ele estava em Buenos Aires bem naquelas convulsões da grande crise econômica da época. Eu me divertia com as histórias depois, mas achava coisa de maluco.

Até que um dia tinha uma consulta médica e fui conhecer a recém-inaugurada Fnac da av. Paulista, e me deparei com o Guia do viajante independente na América do Sul e devorei o livro ali mesmo, comprando em seguida.

Já trabalhava fazia uns 4 anos, mas entre o tempo de estágio(numa época que estagiário não tinha férias) e mudança de emprego, nunca tinha tirado férias. Quando voltei ao trabalho no dia seguinte já comecei a marcar a minha.

Em 2004 o dólar valia R$ 3,00 – sim, era ainda mais caro que hoje – assim tinha que escolher um lugar barato, e defini logo o mais barato de todos: Bolívia e Peru, passando por Machu Picchu  e a Trilha Inca.

Primórdios da internet

Naquela época a internet já estava a toda, mas a internet ‘colaborativa’ ainda estava iniciando. Assim, achar alguma coisa por ali era bastante difícil. Mas… já naquela época conheci o Mochileiros que foi a principal fonte sobre praticamente tudo, e que até hoje uso para planejamentos.  Também encontrei o Brasil de Mochila na época tinha mais jeitão de blog, mas segue até hoje como um bom site de viagens – fiquei muito inspirado por este relato de viagem que, contado no calor do momento, é muito engraçado e me deixou preparado para o que ia enfrentar. No final, ainda publiquei meu próprio Diário de bordo, que está lá até hoje – talvez sinalizando que ia contar estes causos algum dia 😉

Aliás, foi do Mochileiros que encontrei meus companheiros de viagem: 2 caras que nunca havia visto antes, e que infelizmente nunca vi novamente, mas nós 3, sem nos conhecermos, marcamos de nos encontrar em uma cidade desconhecida de todos (La Paz) para a partir dali seguirmos até a Trilha Inca. Assim eu, Tatuí e Pedro fizemos 15 dias da viagem ainda melhores – companheiros melhores ia ser dificil achar..

As férias

Depois de muitas trocas de datas e mexidas no trabalho, consegui juntar férias e um feriado, totalizando 33 dias para viajar – nunca mais consegui viajar mais que 20, 22 dias… assim que é de longe a maior viagem que já fiz. Embarquei no dia 10/10 e voltei no dia 11/11 para casa.

Não vou entrar em detalhes (podem ler o diário de bordo hehe), mas foram 7 dias na Bolivia e o restante no Peru, passando por 10 cidades diferentes – algumas por poucas horas, outras por alguns dias. Conheci lugares de que tinha aprendido na escola ( Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo), andando pela primeira vez sobre um glaciar, a mais de 5 mil metros de altitude, em uma região conhecida como Corredor das cordilheiras, por ficar no meio de 2 cordilheiras. Visitei as Linhas de Nazca, e uma cidadezinha praiana chamada Pisco, que me deixou bastante triste quando foi quase totalmente destruída no Terremoto de 2007.

Mas claro: o ponto alto é a Trilha Inca. Fiquei semanas e semanas me preparando para esta caminhada, que é absurdamente cansativa e absurdamente maravilhosa de se fazer. Mas… 10 anos depois, hoje eu iria de trem diretamente a Machu Picchu 😉

Chegando em La Paz

Chegando em La Paz

"La Catedral", formação destruída pelo terremoto de 2007

“La Catedral”, formação destruída pelo terremoto de 2007

Custo e a política

Passagem aérea era caríssima – para ir por La Paz e voltar por Lima, paguei R$1800,00 e foi comprando milhas, porque a passagem era ainda mais cara. Hoje, por um lado não existe mais voo direto para La Paz, mas Santa Cruz de la Sierra ou Lima são bem mais baratos.

Foi a única viagem destas que tinha uma câmera com filme. Na volta, foram 20 filmes de 36 fotos para revelar – e depois escanear…dá vontade de voltar só para poder tirar mais fotos 😉

Já os países..A Bolivia era um país absurdamente pobre – o Peru estava só um pouco melhor. Em 33 dias gastei parcos 1000 dólares – dos quais 250 foram só na trilha inca, e outros 50 nas Linhas de Nazca – para fazer tudo: transporte, comida, hospedagem e passeios. Isto é o quão baratas eram as coisas por lá.

Também foi em La Paz que fiquei no lugar mais barato da vida, até hoje. Paguei 3 dólares por noite por um quarto com cama, onde mal dava para ficar de pé sem bater o braço – e para tomar banho eu precisava subir 2 lances de escada, já que no meu piso era água gelada – pensando que a água vinha do degelo das montanhas, dá para imaginar o nível 😉

Na época a Bolivia estava começando a ter manifestações de mineiros, que culminaram em Evo Morales 2 anos depois, levando a um país que consegue ser ainda mais pobre do que já era. Voltei a Bolivia em 2007 e já na época se via que as coisas pareciam estar piorando.

Em compensação, o Peru fez algumas escolhas melhores e hoje é um país ‘na moda’. Lima tinha fama de ser uma cidade suja, fedida – eu vi foi uma cidade muito boa e gostosa de se conhecer, além de bem grande. Pois hoje a fama é de “Capital Gastronômica” e o Peru como um todo é um dos países que mais tem se desenvolvido.

 As lembranças

Algumas das que mais me marcam, 10 anos depois

– Passeando pela Estrada mais perigosa do mundo – caminho entre La Paz e Coroico com mão via única na maior parte do tempo, porém via dupla (para passar 2 carros, tinha que dar ré até o ponto de ultrapassagem)  – hoje creio que fechada aos caminhões que circulavam aos montes na época.

– O lago Titicaca, em um azul impressionante, seguido do pôr-do-sol mais lindo do mundo num lugar totalmente isolado na Ilha do Sol, dormindo num hostel que só tínhamos nós 3 e o guia- nem a falta de água para banho aquela noite diminui a lembrança.

– O sentimento de chegar ao fim do Pico da Mulher Morta(é a maior subida da trilha inca). Detalhe engraçado: ao começar a descida do outro lado, chega um dos carregadores: “Quer um refresco?” É claro: mando ver e desce um ‘delicioso’ suco de laranja… quente! o horror, o horror! 😉

– Após 3 dias de caminhada, chegar ao quarto dia e, depois de esperar limpar a neblina, finalmente avistar a própria “Cidade perdida dos Incas”

– Um banho de piscina de água quente aos pés de uma montanha enorme no Canion del Colca

– A mistura de contemplação e tristeza ao caminhar por um lugar tão lindo, palco de uma tragédia tão grande(20 mil mortos em um terremoto nos anos 70) que é Yungai – o Campo Santo em Huaraz.

– O Nevado Pastoruri onde a gente chega a mais de 5 mil metros de altura de carro.( no Chacaltaya chega-se até mais alto, mas não é tão lindo)

Ilha do Sol,  com Lago Titicaca

Ilha do Sol, com Lago Titicaca

O por do sol mais lindo da terra - a foto não faz jus

O por do sol mais lindo da terra – a foto não faz jus

Caminho de coroico(foto do site do globo, porque não tenho foto boa do lugar)

Caminho de coroico(foto do site do globo, porque não tenho foto boa do lugar)

Final da subida do segundo dia da Trilha inca, o mais dificil

Final da subida do segundo dia da Trilha inca, o mais dificil

Cusco - Cidade mágica

Cusco – Cidade mágica

Com Pedro e Tatuí em Machu Picchu

Com Pedro e Tatuí em Machu Picchu

Machu Picchu

Machu Picchu

Sobrevoando as Linhas de Nazca

Sobrevoando as Linhas de Nazca

Mas tenho lembranças ótimas também das pessoas, algumas com quem estive por dias, outras por apenas algumas horas: Uma senhora com quem conversei por algum tempo logo na minha primeira noite, passada dentro de um ônibus a caminho de Sucre; o guia na Ilha do Sol, tocando sua flauta de pan ao final de um dia fantástico; um casal de espanhóis com quem fiz 3 dias de passeios em Huaraz e que me levaram para passear em Lima com eles; a guia e os porters(carregadores) da trilha inca, com quem dividimos 4 dias fantásticos…

Andes visto de cima

Andes visto de cima

10 anos depois…

Depois disto já fiz algumas outras viagens – mas bem menos do que gostaria. Em 2004 eu ficava escrevendo empolgado sobre o quão era bom isto, já que pouca gente viajava. Nestes últimos anos mudou muito e hoje sou eu quem fico morrendo de inveja das viagens dos amigos ou conhecidos, pensando na minha próxima – fiquei 2 anos sem sair de casa, meu recorde :(, que finalmente terminou em Setembro.

Não sei se por ser a primeira, por ser a mais longa ou o que, sei que é uma das viagens que guardo com maior carinho. E hoje, 10 anos depois, a vontade é voltar para a Bolivia e o Peru. De diferente, em lugar de 2 companheiros que conheci pela internet, ir com 2 companheiras da vida toda.

Chacaltaya, nunca mais fui tão alto na vida

Chacaltaya, La Paz -5300 metros – nunca mais subi tão alto na vida

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